terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cap. II - A Reflexão

No Farol tenho tudo o que me faz falta, os meus livros, a minha música, o meu computador e claro a minha máquina de café. Sou um bicho de hábitos simples como costumo a dizer, mas nem sempre foi assim.

Estou sentado no meu sofá a ouvir Bonobo no leitor e a fumar o meu cachimbo e deixo-me perder naquela melodia, fico parado a pensar no passado e no que me levou aquele espaço. Nasci e cresci numa pequena cidade e desde pequeno sempre achei aquilo demasiado pequeno para a minha ambição, cresci a pensar todos os dias em mudar-me para a cidade grande, sempre que ia a Lisboa ficava fascinado com a confusão, a pressa das pessoas, a intensidade do dia a dia. Durante anos e anos só pensava naquilo, entrei na faculdade e foi como se me tivessem entregue uma carta de alforria, a minha liberdade finalmente, nas asas de uma média de 15. Jovem estudante de Gestão de Empresas, tinha o futuro mais do que planeado e nada nem ninguém me poderia parar... pelo menos era o que pensava na altura.

Enquanto estudante, "não" era palavra que não reconhecia, não dizia não a um evento social ou cultural, estava sempre mais do que pronto e encarava toda e qualquer oportunidade desta natureza para me mostrar, para me fazer notar, procurando um reconhecimento quase hollywoodesco, procurando sempre ser um estudante minimamente preocupado tendo em conta todas as "obrigações" sociais.
Mas como tudo tem um fim, o curso terminou e com ele a disponibilidade para muitas das aventuras. O mundo do trabalho ai à porta, e como sempre nada me desviaria do que estava planeado. Lancei-me sem medo, a minha ambição era o motor que me guiava de forma muitas vezes descontrolada naquilo que acreditava ser o melhor para mim, seguia sob o designio pré-estabelecido de um ideal de qualidade de vida.

Depois dos primeiros anos de completa e total euforia, vivi outros bastante atribulados, agastado pela agitação constante de uma cidade turbulenta, forçava sempre um pouco mais guiado pela pressão de um trabalho, até que um dia foi demais e num somatório de tudo decidi que a única maneira de me manter são e sereno era mudar radicalmente o meu caminho. Uns chamaram desmotivação, outros falam em desistência, e eu por mais que possa tentar contra-argumentar não consigo demonstrar a esses o quão importante foi esta decisão. Sim, realmente desmotivei-me naquilo que pensava ser o meu futuro, compreendo quem diz que desisti porque no fundo sei que desisti daquela ideia fixa que tinha, mas para mim o caminho que estava a percorrer deixou de ser claro... deixou de ser o meu Sonho... por isso a única decisão lógica na minha mente era parar, pensar e repensar o sentido, tirar um ano ou anos sabáticos de introspecção e outras vivências.

A vida em Lisboa foi fantástica tenho que o admitir, naqueles anos abracei por completo toda aquela confusão pela qual me sentia fascinado desde miudo e vivi ao máximo todas as experiências. Não me recusei a nada e se hoje posso dizer que estou no caminho certo em muito devo a esse tempo.

Naquele Outono, passava horas sentado naquele Sofá. Analisava o meu passado e tudo o que me levou aquele meu recanto. Os momentos marcantes, as histórias.

Dou por mim sem noção das horas. Já é noite, tenho de cumprir o meu dever profissional.

1 comentário:

  1. por acaso acho que me encontro nesse tal momento "sabático"... e em introspecção... até porque a altura não é para grandes desafios e grandes aventura... ou pelo menos assim o acho!!

    Não te esqueças de ir cumprindo, também aqui o teu dever...

    continua...
    bj

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